"Cisne Branco"


Cisne branco, esquecido a sonhar no alto Norte,
Vendo-se, ao despertar, das neves prisioneiro,
Ergue os olhos ao céu enublados de morte,

Mas o sol já não vem romper-lhe o cativeiro.

 

O gelo, no lençol todo imóvel das ondas,

Em que a aurora boreal põe reflexos de brasas,
Deslumbra-lhe um momento as pupilas redondas,
Dá-lhe a ilusão do sol, mas não lhe solta as asas.

 

Vê que o torpor do frio o invade lentamente;
Debate-se, procura o cárcere romper;

Mas a asa é de arminho, o gelo é resistente:

Tem as penas em sangue e sente-se morrer.

 

Então, põe-se a cantar sem que ninguém o escute;
Solta gritos de dor.em que lhe foge a vida;

Mas essa dor, se ao longe um eco a repercute,

Parece uma canção no silêncio perdida ...

 

Melodia que a voz da Saudade acompanha,
Amarga e triste como o exílio onde agoniza,
Longe do claro sol que outras paisagens banha,
Dos rios e do mar que outra alvorada irisa.

Voz convulsa a chorar perdidas maravilhas:

Tardes ocidentais de sanguínea e laranja,

Noites de claro céu, como um mar cheio de ilhas,
Manhãs de seda azul que o sol tece e desfranja!

 

Mas ao longe, à distância onde a leva a Saudade,
Tão esbatida vai essa triste canção,

Que não desperta já comoção nem piedade:

Encanta o ouvido, mas não chega ao coração.

 

E o Cisne, abandonado ao seu destino, expira
Alucinado e só, sob o silêncio agreste,
Pensando que no azul, como um mar de safira,
Os astros a luzir são a geada celeste ...

 

 

 

Autor: António Feijó ( 1859- 1917)
Editado por: nicoladavid

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