A Cidade do Sonho

 

Sofres e choras? Vem comigo! Vou mostrar-te 
O caminho que leva à Cidade do Sonho... 
De tão alta que está, vê-se de toda a parte, 
Mas o íngreme trajecto é florido e risonho. 

Vai por entre rosais, sinuoso e macio, 
Como o caminho chão duma aldeia ao luar, 
Todo branco a luzir numa noite de Estio, 
Sob o intenso clamor dos ralos a cantar. 

Se o teu ânimo sofre amarguras na vida, 
Deves empreender essa jornada louca; 
O Sonho é para nós a Terra Prometida: 
Em beijos o maná chove na nossa boca... 

Vistos dessa eminência, o mundo e as suas sombras, 
Tingem-se no esplendor dum perpétuo arrebol; 
O mais estéril chão tapeta-se de alfombras, 
Não há nuvens no céu, nunca se põe o Sol. 

Nela mora encantada a Ventura perfeita 
Que no mundo jamais nos é dado sentir... 
E a um beijo só colhido em seus lábios de Eleita, 
A própria Dor começa a cantar e a sorrir! 

Que importa o despertar? Esse instante divino 
Como recordação indelével persiste; 
E neste amargo exílio, através do destino, 
Ventura sem pesar só na memória existe... 

Autor: António Feijó (1859-1917)
Editado por: nicoladavid

 

 

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