A Fiandeira

 

Só, na sua noite erma e sedenta,
Com a solidão, tece uma consciência
Que sonha o vento, a estrela, a nuvem, o condão
A dar aos que têm sonho, uma espécie de ciência
E magia. Que elegia lhe tacteia e sonda o coração

Nas suas mãos há uma prece que é um jorro
De sangue invisível. Uma folha seca pensa
Qualquer coisa inconcebível, e tomba... Ora-lhe
A alma e um verde voa naquela noite intensa.

Para um enigma, para uma nova luz
E que ela tece e fia? Talvez o medite
O linho alvacento onde a noite deixa cruz
Para tantos, infinito que a concite!...

 

A ele, por suas mãos de bênção,

Não chegamos; a esse apenas se atina

E achega quando muitas almas pensam

E uma coral mística nelas se afina.

Mas um pouco por seus dedos ágeis

Tocamos num ignorado Lusíada que foi

Nas sombras de marinheiros d'olhos fundos, hábeis

No tecer-nos hoje a dor magoada que dói.

Até o sangue nos sentir nas suas ossadas,
Liras d'epopeias que foram escalavradas.

Mas as naus continuam no português o tamanho

E a verdade. E a luz ajoelha no íntimo da grei

Que manteve o seu destino sem apunhalar o ido;

Um sonho hoje doído,

Ante si mesmo, ajoelha e sonha;

Da consciência ao sentimento, da popa à ré,

Levante o imperecível da fé,

Crente ainda e sempre, nos dedos

Dessa fiandeira. Por elas afugentou os medos

Deixando ainda um mar piedoso e de fala

Ululante na alma que não se apunhala.

Tecida a vela, noite alta, Portugal a embala;

Suas anónimas e perdidas mãos são eternamente

Uma oração... A cinza também fala!...

Bendita seja ela!

E as suas mãos que teceram velas

Cujo messianismo

Será ainda e sempre

Uma voz para os abismais.


Autor: António de Navarro (1902-1980)
Editado por: nicoladavid

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