"Cantigas de Lua"



Já o luar vem rompendo:
Noite escura, noite escura,
As fontes rezam baixinho,
Pinheirais se estão benzendo.


O luar da Lua Nova,
Mal apontou, foi-se embora:
Inda é pequenino e pode
Perder-se por cá por fora.


Já o luar bate, bate
No monte do rosmaninho:
Nunca vi bater mais leve,
Nem bater com mais carinho.

Meu amor, senta-te perto,
Mais chegadinha ao meu peito:
Não passe o luar por entre
As folhas do amor-perfeito ...
 

Luar do Quarto Crescente,
Como estás espigadinho!
Já te recolhes mais tarde
Que tens amor' s no caminho ...

Já o luar bate, bate,
A noite, à tua vidraça:
Se fosse eu punhas-te séria;
Como é ele, achas-lhe graça!

Já o luar bate, bate,
Bate às grades da cadeia:
Visitas quem está preso,
Bem hajas tu, Lua Cheia!

Já lá diz uma oração:
«Com Deus me deito e alevanto ... »
Mudou minha alma as palavras,
Diz da saudade outro tanto.

Bate o luar nas raízes
Do negro e triste cipreste:

O luar, luar! bem hajas
Pelo bem que lhe fizeste…

 

Já o luar bate, bate
Nos goivos das sepulturas;
Diz à terra: «Faz-te leve!
Embrandecei, pedras duras!»
 

Luar do Quarto Minguante,
Já  lá vais de pés à cova:

O luar! não tenhas pena,
Que tornas à Lua Nova ...

 

Autor: António Corrêa D’Oliveira
Editado por: nicoladavid















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