A Alma das Árvores

Eis-nos mortas, de rastos, pelo chão!
E fomos belas, altas e frondosas.
E demos doces frutas saborosas 
Que mataram a sede e foram pão.

Em nós, cheias de enlevo e mansidão, 
Fizeram ninho as aves amorosas.
Pelas sestas de Julho a arder, piedosas, 
Fomos a sombra e a voz da solidão. 

Fomos o berço do Homem e o seu lume; 
Demos-lhe bênção, cantos e perfume; 
Caixão, em nós descanso até final.

Demos a vida a quem nos tira a vida: 

Mas só nos dói a ingratidão sofrida 
De um mal inútil, - feito só por mal!

Autor: António Correia de Oliveira (1878-1960)
Editado por: nicoladavid


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