Saudades do meu bem


Saudades de meu bem, que noite e dia 
A alma atormentais, se é vosso intento 
Acabardes-me a vida com tormento, 
Mais lisonja será que tirania.

Mas, quando me matar vossa porfia, 
De morrer tenho tal contentamento, 
Que em me matando vosso sentimento, 
Me há-de ressuscitar minha alegria.

Porém matai-me embora, que pretendo 
Satisfazer com mortes repetidas 
O que à beleza sua estou devendo.

Vidas me dai para tirar-me vidas, 
Que ao grande gosto com que as for perdendo 
Serão todas as mortes bem devidas.


Autor: António Barbosa Bacelar (1610 – 1663)
Editado por: nicoladavid

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