Estou a ser triste tão acostumado

 

Estou a ser triste tão acostumado,

O prazer de tal sorte me enfastia,

Que só quem me entristece me alivia,

Quem me quer divertir me dá cuidado.

 

Assim o largo mal me tem mudado,

Que se não fosse triste morreria,

Fujo como da morte da alegria,

Entre penas só me acho descansado.

 

A vida em tanto mal tenho segura,

Pois na minha tristeza só consiste,

Que não pode faltar-me eternamente:

 

Ninguém teve em ser triste maior ventura!

Que hei de viver eterno de ser triste,

E só posso morrer de ser contente.

 

Autor: António Barbosa Bacelar (1610 – 1663)
Editado por: nicoladavid

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