À morte de uma dama

 

Sombras de um claro sol que me abrasava, 
Cinzas de um doce fogo aonde ardia, 
Ruínas de uma boca em que vivia, 
Cadáver de uma vida que adorava,

Quem te trocou, senhora? O tempo estava 
A teus pés, em teu rosto o sol nascia, 
De tua vista se compunha o dia, 
De tua ausência a noite se formava.

Pois como pôde o tempo pressuroso, 
O dia breve, a noite fugitiva 
Mudar um corpo e rosto tão formoso?

Mas tanto sol e luz, tão excessiva 
Ardendo de contínuo, era forçoso 
Trocar-se em cinza morta a flama viva.


Autor: António Barbosa Bacelar (1610 – 1663)
Editado por: nicoladavid

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