Quadras (2)

 

Peço às altas competências

Perdão, porque mal sei ler,

P’ra aquelas deficiências

Que os meus versos possam ter.

 

Julgam-me mui sabedor;

E é tão grande o meu saber

Que desconheço o valor

Das quadras que sei fazer!

 

Quem me vê dirá: não presta,

Nem mesmo quando lhe fale,

Porque ninguém traz na testa

O selo de quanto vale.

 

Sou humilde, sou modesto;

Mas, entre gente ilustrada,

Talvez me digam que eu presto,

Porque não presto p’ra nada.

 

Não sou esperto nem bruto,

Nem bem nem mal educado:

Sou simplesmente o produto

Do meio em que fui criado.

 

Não sei se sei: sou dos tais

A quem pouco saber cabe;

Mas sei que é saber de mais,

A gente saber que sabe!

 

O tal Aleixo, o poeta,

Que dizem ser de Loulé,

É uma figura incompleta

Sem o Magalhães ao pé.

 

Vim ao mundo sem saber

Que vinha a ser o que sou;

Agora morro sem querer

E sem saber para onde vou.

 

Os meus versos o que são?

Devem ser, se os não confundo,

Pedaços do coração

Que deixo cá, neste mundo

 

Autor: António Aleixo (1899-1949)
Editado por: nicoladavid

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