"Que cor ó telhados de miséria"

 

Que cor ó telhados de miséria 
onde nasci

de tanta pequenez de tão humildes ovos 

de nenhum querer 

a que horas nasceram as estrelas que 

um dia foram

a que horas nasci?  

Não vim embarcado não me encontrei
na rua

não nos vimos

não nos beijamos

nunca parti  

Não sei que idade tenho  

Quando havia antes um antigamente 
havia uma esperança 

agora no próprio coração da ilusão 

onde a água limpa as pedras das ruínas 

entre destroços límpidos 

deito-me sobre a minha sombra e durmo 

e durmo  

Quando havia antes um amanhecer 
à beira do abismo 

agora no próprio coração do coração 

durmo estrangulando um monstro inerme 

um palhaço de palha seca e pálido 

quando havia antes um caminho  

Não houve nunca amigos nem, pureza
Nem carinhos de mãe salvam a noite

É preciso ir mais longe na incerteza

É preciso no silêncio não escutar  

A manhã que eu procuro não foi sonhada 
Uma árvore me ignora na raiz

Perfeitamente desesperado é o meu sonho 

Os pássaros insultam-me na cama 

Só com doidos com doidos amaria 

perfeitamente presente na frescura 

do mar  

Uma casa para eu ter a humildade de ser espaço 
a líquida frescura duma jarra 

um passo leve e certo em cada sombra 

um ninho em cada ouvido 

de doces abelhas cegas  

Uma casa uma caixa de música e sossego 
Um violão adormecido na doçura 

Um mar longínquo à volta atrás do campo 

Uma inundação de verdura e espessa paz 

Uma repetida e vasta constelação de grilos 

e os galos álacres do silêncio 

Um mar de espuma e alegria obscura 
um mar de espuma e alegria clara 

entre o verde e a brisa 

Na brancura dos quartos 
a inocência poderá sonhar desnuda 

os insetos poderão entrar 

juntamente com as plantas e as aves 

Uma longa asa passará

O mundo e o silêncio a mesma ave

e o mar

o mudo leão longínquo e fresco 

faiscará entre o ver e as lâminas solares

 

Autor: António Ramos Rosa
Editado por: nicoladavid

 

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