Tese e Antítese

 



Já não sei o que vale a nova ideia, 
Quando a vejo nas ruas desgrenhada, 
Torva no aspecto, à luz da barricada, 
Como bacante após lúbrica ceia... 

Sanguinolento o olhar se lhe incendeia; 
Respira fumo e fogo embriagada: 
A deusa de alma vasta e sossegada 
Ei-la presa das fúrias de Medeia! 

Um século irritado e truculento 
Chama à epilepsia pensamento, 
Verbo ao estampido de pelouro e obus... 

Mas a ideia é n'um mundo inalterável, 
N'um cristalino céu, que vive estável... 
Tu, pensamento, não és fogo, és luz! 

II 

N'um céu intemerato e cristalino 
Pode habitar talvez um Deus distante, 
Vendo passar em sonho cambiante 
O Ser, como espectáculo divino. 

Mas o homem, na terra onde o destino 
O lançou, vive e agita-se incessante: 
Enche o ar da terra o seu pulmão possante... 
Cá da terra blasfema ou ergue um hino... 

A ideia encarna em peitos que palpitam: 
O seu pulsar são chamas que crepitam, 
Paixões ardentes como vivos sóis! 

Combatei pois na terra árida e bruta, 
Té que a revolva o remoinhar da luta, 
Té que a fecunde o sangue dos heróis! 

Autor: Antero de Quental (1842-1891)
Editado por: nicoladavid

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