Quia Æternus

 

Não morreste, por mais que o brade à gente

Uma orgulhosa e vã filosofia...

Não se sacode assim tão facilmente

O jugo da divina tirania!

 

Clamam em vão, e esse triunfo ingente

Com que a Razão - coitada! - se inebria,

É nova forma, apenas, mais pungente,

Da tua eterna, trágica ironia.

 

Não, não morreste, espectro! o Pensamento

Como dantes te encara, e és o tormento

De quantos sobre os livros desfalecem.

 

E os que folgam na orgia ímpia e devassa

Ai! quantas vezes, ao erguer a taça,

Param, e estremecendo, empalidecem!

Autor: Antero de Quental (1842-1891)
Editado por: nicoladavid

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