Homo

 

Nenhum de vós ao certo me conhece,

Astros do espaço, ramos do arvoredo,

Nenhum adivinhou o meu segredo,

Nenhum interpretou a minha prece.

 

Ninguém sabe quem sou... e mais, parece

Que há dez mil anos já, neste degredo,

Me vê passar o mar, vê-me o rochedo

E me contempla a aurora que alvorece...

 

Sou um parto da Terra monstruoso;

Do húmus primitivo e tenebroso

Geração casual, sem pai nem mãe...

 

Misto infeliz de trevas e de brilho,

Sou talvez Satanás; - talvez um filho

Bastardo de Jeová; - talvez ninguém!

Autor: Antero de Quental (1842-1891)
Editado por: nicoladavid

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