Invocação

 

Poetas que me rodeais, à noite, quando cismo
Na infinda solidão das minhas horas mortas;
Figuras de alma, absortas
Na treva, em que me abismo,
E perdidas a olhar num misterioso encanto;
Eu compreendo bem o vosso canto,
Que em meus ouvidos íntimos ressoa
E que povoa
De estrelas o infinito do meu ser!

Poetas que me rodeais quando medito
Na saudade que faz os mortos reviver,
Entendo, sim, o vosso estranho grito,
O além da vossa mágoa;
E, logo em mim, soluçam, vagamente,
Elegias que eu rezo enternecidamente,
Como as fontes murmuram versos de água...

Camões! Teu alto sonho em mim delira
E a tua voz extinta é novo canto alado,
Que fere a minha lira; Na minha dor,
Sinto bramir o vento e o mar, salgado
Das lágrimas que chora o Adamastor!

Serra minha da Arrábida, saudosa,
De que Frei Agostinho se encantou,
E, nessa doce paz religiosa,
Servo de Deus, um dia se exilou;
Alta serra nocturna e fragarosa,
Que ao Tejo e ao Sado as águas apartou;
Oiço o teu canto humilde e pobrezinho,
O meu irmão em Deus, Frei Agostinho!

Ajoelho perante a tua imagem,
Santo Antero da minha devoção;
Os «Sonetos» são cruzes na paisagem,
— Calvário desta humana condição!

António Nobre, ó meu irmão, doente
Daquela dor que os ímpios não conhecem,
Pousas as mãos esguias, que arrefecem
Na minha fronte ardente!

Verlaine, Baudelaire: — a dor amarga;
Shelley: — o vento etéreo;
Keats: — a eterna dor;
E Dante e o seu Inferno: visão larga
Do Mundo além da Morte e além do Amor;
E tu, doce Vergílio,
A primeira figura no Mistério
Da minha soledade!

Vindes todos quebrar o meu exílio,
Trazer à minha vida a vossa Eternidade!

E eu falo só, na noite iluminada
Pelo vosso clarão;
E sinto em mim, de novo, a luz sagrada,
O milagre da minha inspiração!


Autor: Anrique Paço D’Arcos (1834-1905)
“Carlos Eugénio Correia da Silva” (Conde de Paço D’Arcos)
Editado por: nicoladavid

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