Em cascata

 

Para descansar o meu líquido corpo
tenho todo o tempo para além
deste tempo meu
e a imensidão do espaço.
Não tenho pressa de perder o tempo
e ganhar o mar onde os rios morrem.
Entre o chegar e o não chegar
prefiro continuar a ser
riacho saltitante
a cantar de pedra em pedra
despreocupado como criança ocupada
no jogo da cabra-cega
e que as luas me cubram
com verdes desmaiados
nas noites virgens das florestas
a percorrer
e que a claridade de mim faça
água incendiada
cascata diurna e refulgente
a brincar com o sol ao arco-íris
no colo maternal da terra.
Quando nos finais dos tempos
então chegar ao mar
serei o que calhar
anjo ou verme
tudo ou nada
água transformada
em lúdica gaivota
alvoroçada


Autor: André Moa
José Guilherme Macedo Fernandes”
(1939-2011)
Editado por: nicoladavid

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