Literatura‎ > ‎Obras de Ana Saraiva‎ > ‎

"Sem abrigo..."


é a despachar!
comam depressa que o frio arrefece
a sopa, a boa-vontade, as mãos que guiam o morteiro
e o morteiro que assim fica brando e ineficaz como o sarcasmo
de quem escolhe o pedaço de chão quente para mais aquela noite
e queima os cobertores made-in-china nos fumos que vêm lá debaixo
e os pulmões
que não sofrem de sarcasmo
toca a andar!
durmam depressa que a noite pode ser longa mas o sol raiou
o dia abriu e o ginásio fecha, meus senhores (cães, não), fecha para limpeza
e desinfestação, perdão, desinfecção das partes comuns à humanidade que pernoita
graças à boa-vontade de alguém que vem no "pacote de medidas de emergência"
que poderão chuchar nos intervalos da existência
e
caso morram
quando as mãos aquecem os morteiros
tenham a bondade de sorrir e de facilitar o vosso manuseamento
tomando um banho diário
e
fechando os olhos

 

Autora: Ana Saraiva
Editado por: nicoladavid




Comments