"Sobrescrito"


Fecharam-me no sobrescrito,

e apagaram-me, rectangular, a luz.

Como posso eu, sem visão, pensar,

ouvindo os dedos bruscos do carteiro

em tiquetaque furioso. Se ao menos

ajustassem o selo, quem sabe se ao

centro, depois à esquerda e à direita,

em cima e um pouco abaixo,

na vertical e a seguir na horizontal,

mas um ser ínfimo não se ajusta

ao envelope que se abre de desejo

na inerência do que, invisível, o toca.

 

Ouvir é um parto silencioso.

 

Autora: Ana Marques Gastão
Editado por: nicoladavid



Comments