Jogo das Escondidas

Pobre balada de acaso,
Como é que nasceste em mim?
De que longes dentro de alma
Vieram teus passos breves
E nos ecos dos teus passos
Toda a música da vida
E a vida de todo o Mundo!...

 

Pobre balada de acaso,
Vai-te e deixa-me no ermo!
Não cantes mais! Não acordes
O Silêncio onde eu procuro
Achar-me todo perdido...
Não me cruzes por atalhos
O labirinto de passos
Com que eu traço à minha roda 
Os caminhos do Outro Mundo...

Pobre balada de acaso!
Vai-te e deixa-me perder
De mim, no meu labirinto...
Deixa os meus passos errados
Como os passos dum menino,
A tecer encruzilhadas
Para enganar o destino...

Por aqui vai a minha alma,
Meu corpo noutro caminho,
E os passos do coração
Vão por além, assustados...

— Oh, labirinto de sonho,
Ressoante de passadas,
Todo cheiinho de mim
Nas ruas desencontradas!

Ó balada traiçoeira,
Aquieta a música pérfida!
Eu, a Alma e o Coração,
Trocámos as nossas voltas
Trocámos voltas à vida...
Silêncio! Não faças bulha!
Que ela anda rondando à espreita
Por essas ruas perdidas...
Não nos venhas acusar
No jogo das escondidas!...


Autor: Américo Cortêz Pinto (1896-1979)
Editado por: nicoladavid





Comments