"Cravos de Abril"


Tropas na rua! E o povo à solta 
Inebriado, cheirando a revolta 
Canta e blasfema! Prazeres dilectos: 
E pra amanhã traça projectos 
De revinditas, de desagravos... 

Entretanto enfeita com rubros cravos 
Armas e ódios escondidos 
Numa ansiedade febril! 

E os cravos rubros, todos floridos, 
Cantavam notas de alegria 
Na inquieta e equívoca harmonia 
Do alegre dia 
Primaveril! 

Então corria 
O mês de Abril. 

Hordas ignaras, ululantes, 
Gritando e uivando, vociferantes, 
Atordoam terra e Céus! 

Também um dia os judeus 
Falando em Pátria, aos cem e aos mil, 
Cegos com ódio à Verdade e à Luz 
(Era também no mês de Abril!) 
Mataram Cristo Jesus! 

Cravos vermelhos, cantiga em flor! 
Idade núbil, beijos de amor! 
Paixão ardente, Luz e Poesia! 
Graça e lirismo! 
Perfume cálido e subtil!... 

Porém eu cismo 
Naquele dia 
Em que entre as vascas duma agonia 
Cravos também de duro hastil 
Tintos de sangue, sangrando Luz 
(Era também no mês de Abril!) 
Cravaram Cristo numa cruz. 

Dobre a finados, dia de Paixão! 
Os judeus ganharam! De novo cá estão! 
Mas a grande Pátria, a Pátria de meus Pais, 
Morreu em Abril e não ressurge mais.... 


Autor: Américo Cortez Pinto (1896-1979)
Editado por: nicoladavid



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