Soneto Premonitório

 

Sobre este plano, liso chão, me deito

à maneira dos mortos. Que arrepio...

Que sensação estranha de outro frio,

como uma unha, me escalavra o peito...

 

Me deito aqui, no liso chão, e espreito...

Guardam as coisas, que do chão espio

crescerem para mim, num desafio,

não sei que grave gesto insatisfeito...

 

Tanto me habituei a estar comigo

que ir-me embora de mim me causa pena.

No liso chão deitado o corpo sente

 

um sossego de estar — de estar somente —

coisa que à grande inércia se condena,

pedra, talvez, de algum túmulo antigo...


Autor: Alphonsus de Guimaraens Filho (1918-2008)
Editado por: nicoladavid
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