Soneto dos quarent’anos

 

Não me ficou da vida mágoa alguma

de que possa lembrar aos quarent'anos

senão esses cansados desenganos

que o mar que trouxe leva como espuma.

 

Foram-se os anos, mas que são os anos?

Chama que em sombra esfaz-se, apenas bruma.

As horas que eu vivi, de uma em uma,

deixaram sonhos e deixaram danos.

 

Muita morte passou n'alma ferida:

meu pai e meus irmãos, mortos amados.

Mas pela minha vida passou vida,

 

passou amor também, passou carinho.

E pelos dias claros ou magoados

não fui feliz e nem sofri sozinho.

Autor: Alphonsus de Guimaraens Filho (1918-2008)
Editado por: nicoladavid

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