Soneto do silêncio

 

Fantástico silêncio! Nele existe

um clarão momentâneo: e tudo dorme.

Ai! que a noite irreal, cega e disforme,

ainda o faz mais pungente e amargo e triste!

 

Fantástico silêncio moribundo

aos meus olhos aceso como velas

que iluminassem becos e vielas

pelas cidades pálidas do mundo...

 

Lá o vejo pender, fruto caído,

lá o vejo soprar contra muralhas

e recobrir — silêncio envelhecido —

 

o que a noite ocultou, e está perdido...

Lá o vejo oscilar nas cordoalhas

de algum veleiro desaparecido.

Autor: Alphonsus de Guimaraens Filho (1918-2008)
Editado por: nicoladavid

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