Soneto do Lívido Navio


Em teu bojo de sangue, noite escura,

em teu veloz e lívido navio,

eis-me a escorrer no ar. Não sei, colhi-o

(indisfarçada, ríspida amargura)

 

colhi-o na invisível colgadura

bolorenta de morte, no sombrio

pouso aflitivo de onde sopra um frio

inaugural... e súbito depura

 

solidões torturadas de saudade

e as remotas planícies ensopadas

de chuva eterna, angústia, desalento...

 

(Ficar ali, à beira da cidade

povoada de faces assombradas,

ferido, machucado pelo vento!)

Autor: Alphonsus de Guimaraens Filho (1918-2008)
Editado por: nicoladavid

 
 
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