Soneto da morte



Entre pilares podres e pilastras

fendidas, te revi subitamente;

eras a mesma sombra em que te alastras,

feita carícias de uma face ausente.

 

Eras, e me afligias. Tormentosa,

vi-te crescer nos muros desabados.

Cruel, cruel; contudo, mais saudosa,

mais sensível que os céus e os descampados.

 

Bolor, pátina espessa, calmaria,

vi-te a sofrer no fundo da cidade

como um grande soluço percutindo

 

sobre os olhos, as mãos e a boca fria.

E de repente um grito de saudade.

Depois a chuva, sem cessar, caindo.

Autor: Alphonsus de Guimaraens Filho (1918-2008)
Editado por: nicoladavid

 
 
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