O soneto da Capela de Sant’Ana

 

Cheguei sem nem saber porque viria.

Cheguei cantando em plena madrugada.

Por encontrar a porta entrecerrada,

cantando entrei. Cantando ficaria,

 

não fosse o Teu silêncio, a mão cansada

contendo a claridade fugidia.

Senhor, eu nem cuidara de mais nada,

com tanta ardência desejara o dia!

 

A capelinha — um céu silvestre e vivo —

dormia no sossego da montanha.

E eu que cantava e ria sem motivo,

 

quem é que diz que poderia agora

ao ver-Te o olhar ferido e a dor tamanha,

deixar-Te aí, Senhor, para ir-me embora!

Autor: Alphonsus de Guimaraens Filho (1918-2008)
Editado por: nicoladavid

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