"O poeta e o Poema"


Nenhum poema se faz de matéria abstrata.
É a carne, e seus suplícios, ternuras, alegrias,
é a carne, é o que ilumina a carne, a essência,
o luminoso e o opaco do poema.

Nenhum poema. Nenhum pode nascer do inexistente.
A vida é mais real que a realidade.
E em seus contrastes e seqüelas, funda um reino
onde pervagam não a agonia de um, não o alvoroço
de outro, as o assombro de todos num caminho
estranho como infinito corredor que ecoa
passos idos (de agora, de ontem e de sempre),
passos, risos e choros — num reino que nada
tem de utópico, antes mais duro do que rocha,
mais duro do que rocha da esperança
(do desespero?), mais duro do que a nossa
frágil carne, nossa atônita alma, — duros pesar
de seu destino, duros  pesar de serem só a hora
do sonho, do sofrimento, de indizível espanto,
e por fim um silêncio que arrepia a epiderme
do acaso:

(...)

Não há poema isento.
Há é o homem.
Há é o homem e o poema.
Fundidos.


 

Autor: Alphonsus de Guimaraens Filho
Editado por: nicoladavid

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