Cemitério de pescadores I

 

Este é um cemitério de pescadores.

Onde ficaram as grandes redes? E as varas de pesca? E as

                                                             [pobres jangadas?

De malha deveriam ser as suas flores,

os singelos ornatos... E as negras, desoladas

 

cruzes, da madeira dos barcos... Os rústicos pastores

do mar, os rudes irmãos das madrugadas,

deitaram-se no chão, esqueceram os amores

e os pânicos, as alegrias insuspeitadas

 

que o mar oculta... Este vento que geme, este vento

não uivará para embalá-los? De mãos atadas, de ouvidos

tapados, que lembrarão? Cercam-nos as eternas paredes

 

do silêncio, mas eles deverão estar, neste momento,

em outro mar, procurando os cardumes perdidos,

e armando, à luz de outro sol, as suas velhas redes...

Autor: Alphonsus de Guimaraens Filho (1918-2008)
Editado por: nicoladavid

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