Vai-te Ano Velho


“Amara lemni

Temperat risu.”

(Horat.)


 

Vai-te, ano velho, vai-te, e nunca volvas

Dos séculos no giro;

Sumido sejas tu nas profundezas

Da imensidão do nada,

Ano parvo e poltrão, chocho e sem préstimo,

Inútil como um cônego.

Quem fez caso de ti? Nem praguejado,

Nem bendito morreste,

Sem deixares legado ou testamento

À deserdada história.

Foram teus dias, dias de rotina,

Como as lições sabidas

Da ensebada, suja caderneta

De um lente de Coimbra;

Tuas horas, as horas marianas

De velha abadessona

Que há quarenta anos tem no mesmo sítio

O babado registo

Do santo favorito. – Vai-te, some-te,

Carunchoso ano velho;

Trague-te o olvido inteiro; mais memória

De ti não fica à terra

Do que deixa um abade de Bernardos,

Da Academia um sócio.

 

Autor: Almeida Garrett (1799-1854)
Editado por: nicoladavid



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