Óscar

        





(Imitação de Ossian) 



Árida em torno a mim a natureza

Só descalvadas penedias broncas.

Só crespo, alvo regelo me descobre:

Dorme a vegetação nos troncos secos.

Morre no leito congelado e rio...

Toda repousa em lúgubre silêncio

A vida de universo. – em frio espasmo

Da existência parou cansada a máquina.

Desabrida estação! quanto a minha alma

Se embebe na mudez de teus horrores!

Todo e vigor se me acolheu do corpo,

Ao coração no peito; – a alma compressa

Ressalta e pula às regiões etéreas.

Veloz imaginar, nas asas tuas

Eis-me librado! pelos ares vago

E espaços vingo de alongados mares,

Desço na terra e poiso... Oh! qual me cerca

Enrevesada cerração confusa!

É mundo isto que vejo, é terra ainda

Esta que piso?... Não descobrem olhos

Mais que nuvens e horror, trevas e caos...

Lá se adelgaça um pouco a névoa grossa:

Vejo ouriçar-se pontiagudas penhas

Hirtas de abrolhos a alvejar coa neve...

Lá caí de chofre em catadupa, e soa

Horrendamente, com fragor tremendo

Torrente imensa na soidão do vale:

Ei-la sombria se devolve e espraia

Pela extensão de um lago...

... De além vejo

Vir pelos topes dos fronteiros montes

Grave e pausado silencioso velho

Em vagaroso passo caminhando.

Longa dos ombros ao talar lhe desce

Alva, comprida túnica: na destra

Traz uma hástia de lança farpeada.

E pendente da esquerda uma harpa antiga

Onde o vento ressoa em ocos ecos.

Gemeu de os escutar o ancião dos tempos,

E de profunda mágoa lhe soluça

O peito descarnado. Ei-lo que a toma

Nas mãos trementes, e lhe apalpa as cordas

Esbambeadas do vento, e desmontadas

Do longo correr de anos. Já se afina,

Já troa altivos sons em modo lúgubre

Mas desusado e novo. Oh, que de Tura

É este o vate, Ossian este é por certo.

Não me enganei; era de Ossian a sombra,

E assim cantou:

– Óscar, Dermid são mortos:

No florescer de esperançosos anos,

Ceifou amor cruel tão caras vidas.

Caruth é pai de Óscar, Caruth os chora,

E a morte dos mancebos infelizes

Conta ao filho de Alpin. – Porque, diz ele,

Porque abrir-me de novo a fonte ao pranto,

Porque outra vez o peito me laceras?

Filho de Alpin, porque a pedir-me volves

A triste narração daquela morte?

Óscar, Óscar, meu filho!... Ai, destes olhos

Já se afogou a luz no mar das lágrimas:

Só a memória das desgraças minhas

Dentro no coração inda não morre

Como hei de eu outra vez voltar minha alma

Aquela história fúnebre... a essa morte

Do maior dos heróis? – Chefe dos bravos,

Nunca mais te verei, Óscar, meu filho?

Ah, desapareceu de sobre a Terra,

Qual no meio da horrenda tempestade

O astro da noite, como o Sol brilhante

Quando pejada cerração de nuvens,

Que das águas se elevam, se condensa,

E as crespas, fuscas rochas de Ardanider

Co negro manto pálida rebuça.

E eu triste, eu só no solitário albergue

Definho, a pouco e pouco, em mágoa, e Seco,

Qual erme antigo da escabrosa Morven

Que árido vento despojou dos ramos,

E que, ao mais leve sussurrar do Norte,

Quase vacila e cai, – Chefe dos bravos,

Nunca mais te verei, Óscar, meu filho?

Não cai, filho de Alpin, no campo o bravo

Como a erva do campo: a sua espada

Fuma primeiro do inimigo sangue;

Antes de sucumbir, tremendo rompe

Coa morte ao lado, os batalhões cerrados

Das boatos orgulhosas. Mas, ó filho,

Mas tu, meu caro Óscar, mas tu morreste

Sem que inimigo algum fosse, a teus golpes,

Na região da morte anunciar-te.

Tinta no sangue a tua lança, oh triste!

Do teu amigo foi...

Um só nos peitos

Óscar, Dermid um coração só tinham:

juntos iam ceifar da guerra aos campos,

E sua estreita amizade era mais forte

Que o aço da armadura que os vestia.

Entre ambos, sempre unidos rias batalhas,

Marchava a morte sempre: juntos ambos

Caíam de rondão sobre o inimigo,

Quais dois rochedos que dos topes de Arven

Se despegam e caem na terra e jazem.

Suas espadas fumegavam sempre

Do sangue dos mais fortes gotejando

E só de ouvir seus nomes, enfiavam

De pálido terror bravos guerreiros.

E quem, senão Dermid, a Óscar semelha,

E quem, senão Óscar, Dermid iguala?

Dargo, o valente Dargo, a quem na guerra

Ninguém nunca jamais não viu as costas,

Dargo a seus golpes sucumbiu tremendos.

Como o dia ao nascer, mais bela ainda,

Era do morto herói a bela filha,

Doce como brilhar da branca Lua.

Tinham seus olhos o luzir de estrelas

Que através de chuvosa nuvem fulgem:

Na Primavera a suspirar da brisa

Mais suave não é que o seu bafejo;

Recém-geada nas manhãs, a neve

Que se ondeia alvejando nas estevas,

De seu cândido seio é froixa imagem.

Viram-na os dois heróis, e ambos a amaram;

Adorava-a cada um como a sua glória;

Possui-la ou morrer ambos queriam.

Porém da bela o coração rendido

A Óscar ficou, a Óscar toda se entrega:

Já cega beija a mão que o pai matara,

E não vê nessa mão de Dargo o sangue.

E Dermid disse a Óscar: – “Ouve-me; eu amo,

O filho de Caruth, amo essa bela,

Sei que o seu coração por ti só bate,

Mas a minha paixão nem isso a apaga:

Óscar, rasga este peito, é meu amigo,

Seja a tua espada que me livre dela.”

– “Quê! tingir no teu sangue a minha espada!”

– “E quem, se Óscar não for, há de atrever-se,

E quem é digno de tirar-me a vida?

Morrendo por tua mão, morro com glória,

E eu quero a morte, amigo, mas honrada.”

– “Pois bem, cruel Dermid, empunha o ferro,

E às mãos de seu amigo Óscar expire.”

De Brano junto às margens combateram,

Tingiu-lhe o sangue as ondas fugitivas,

E sangue a relva que lhas borda em torno.

Dermid caiu... num último sorriso

De morte o doce amigo saudando.

– “Filho de Diaran” – Óscar bradava:

“Fui eu que te matei, Dermid, eu, ímpio!

Tu que no mais ferido das pelejas

Não sucumbiste nunca, agora, amigo,

Hei de-te eu ver assim morrer sem glória!...”

Disso, e a mágoa quebrou-lhe a voz no peito:

Vagoroso se afasta, e ao triste objeto

Vai de seu triste amor. Ela no rosto

Lhe leu a intensa dor que o atormenta,

E disse: – “Óscar, que nuvem tão pesada

Escurece a tua alma?”

– “A minha fama

Perdi-a hoje, apagou-se a minha glória.

Sabes, filha de Dargo, a nomeada

Que eu tinha entre os archeiros: ouve agora.

De erguido tronco suspendido o escudo

Estava de Gondur, Condur o bravo

Que num combate minha mão prostrara.

Tentei de o traspassar com minhas frechas,

E em vãos esforços se me foi o dia.

– “Pois bem! tentá-lo-ei eu menor?” lhe volveu ela.

“Sabem as minhas mãos também vibrá-lo

Esse arco destruidor da tua glória.

Muitas vezes meu pai folgou de ver-me

Sempre certas cravar as frechas no alvo.”

Partem. Trás do broquel Óscar se oculta...

Rápida a seta sibilando voa

Das mãos da bela para o seio amante.

– “Arco ditoso” moribundo exclama

Já todo em sangue o campeão dos montes:

“Oh adorada mão! eu te agradeço.

Quem fora digno de enviar-me às sombras,

Ao filho de Caruth quem se atrevera

Senão a filha do valente Dargo?

Ah! seja inteiro este favor, querida!

Leva-me ao pé do meu amigo, e deixa-me,

Que morrerei em paz.” – “Óscar”, responde

A donzela: “e eu não sou filha de Dargo?

Eu sei também morrer como tu.” – Disse,

E o belo seio atravessou num ferro:

Corre o sangue... ela treme e caiu morta.

Juntos descansam do ribeiro à margem:

Cobre-lhe a campa a movediça copa

De um álamo frondoso. Ao meio-dia

Desce o gamo fugaz do alto do monte

E aí vem pascer à sombra, enquanto as chamas

Ardem no firmamento, e todo envolto

Nas alvas, longas roupas o Silêncio

Era derredor dos próximos outeiros

Reina em toda a mudez da Natureza.

Assim cantava o caledônio vate;

E de seu canto as derradeiras notas

Ainda em meu ouvido ressoavam

Quando um raio de sol de luz criadora

No aposento me entrou, e a névoa toda

De Escócia dissipou, – libertou-me alma

De não sei que opressão, e me devolve

Aos doces climas da risonha Elísia.


Autor: Almeida Garrett (1799-1854)

Editado por: nicoladavid

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