Regresso À Pátria

 

Ouves? Rija celeuma aos ares sobe
E fere os ventos que nas ondas folgam.
— «Terra, terra!» bradou gajeiro alerta
— «Terra!» ecoa confusa vozeria
Da marítima turba; Oh! voz querida.
Doce aurora de gozo e de esperança
Ao coração do nauta enfraquecido,
Do alquebrado sequioso passageiro,
Que a esposa, os filhos, ou talvez a amante,
Nessa voz doce e grata lhe alvejaram.
Terra, e terra da pátria! Debuxada
Se vê pulando a mágica alegria
Nos semblantes de todos. Já contentes.
Um se afigura surpreender o amigo.
Outro à esposa fiei cair nos braços;
Este da velha mãe, que há tanto o chora
Ir enxugar as lágrimas aflitas;
Aquele, entre alvoroços e receios.
Não ousa de pensar se ao pai enfermo
Na descarnada mão rugosa e seca
Ósculo filial lhe é dado ainda
Respeitoso imprimir, — ou se a ternura.
Se o amor de filho sobre a laje avara
Se irá quebrar de gélido sepulcro
Que em sua ausência — tão longa — lho roubasse.
Qual da amada, que sempre foi constante,
— Ou sempre, ao menos, lha pintou de longe
A namorada ideia — perto agora
Começa de temer que tal distância.
Separação tamanha e tão comprida.
Novo amante mais perto... — Mas quem sabe?
Talvez... — E esse talvez é de esperança
Sempre querida, sempre lisonjeira.

Um só no meio de alegrias tantas
Quase insensível jaz: caiado e quedo,
Encostado à amurada, de olhos fitos
Tem nesse ponto que negreja ao longe
Lá pela proa, e cresce a pouco e pouco.
Era esse o extremo promontório
Que dos montes de Cynthia se projecta
Sobre o fremente Oceano que na base
Tremendo quebra as enroladas vagas.
No gesto senhoril, mas anuviado
De sombras melancólicas, impresso
Tem o carácter da cordura ousada
Que os filhos enobrece da vitória:
Gesto onde o som da belicosa tuba
Jamais a cor mudou, nem feito indigno
Tingiu de pejo. vil. Na tez crestada
Honrada cicatriz, que envergonhara
Adamados de corte, dá realce
As feições nobres do gentil guerreiro.
Desses olhos que a luz ateou do engenho,
Quem um dos lumes apagou? — A guerra
No campo das batalhas. Um que resta
Vivaz centelha, e ávido se alonga
A recobrada pátria. — «Pátria» disse
Em voz tão baixa, que a tomaras antes
Pelos ecos do interno pensamento
Faiando ao coração sem vir aos lábios,
«Pátria, alfim torno a ver-te» — E lacerando
Entre os lábios mordidos o ai sentido
Que as piedosas palavras lhe seguiu,
Recaiu na tristeza taciturna
De que a ideia da pátria o despertara.


Autor: Almeida Garrett (1799-1854)
Editado por: nicoladavid

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