Ramo de Cipreste





À Exª Srª D. Ana Leite de Teive

 


A esta frente desbotada

De angústias e dissabores

Não cabe o louro da glória

Hera as rosas dos amores:

A triste fado votada,

Sem renome, sem memória,

Nem terá piedosas flores

Sobre a campa abandonada.

Sei que do negro cipreste

Só me toca a palma obscura...

Mas nem essa rama escura

Que por tuas mãos colheste,

Nem essa quis a ventura

Que me viesse coroar...

Tão cruel é minha estrela

Tão funesto é meu pesar.

À mão inocente e bela

Que o triste ramo colheu,

Por mui alto para meu,

Volta pois o dom fatal:

Mas fica, esse sim, o agoiro

Que profetiza o meu mal.

– Oh! quando faminta espada

Ou sibilante peloiro

Houver enfim terminada

A amarga, penosa vida...

Ao menos – se, assim pedida,

Mercê tal é de outorgar –

Desses teus olhos divinos

Uma lágrima sentida

Venha piedosa os destinos

Do proscrito vate honrar.

 

 

Autor: Almeida Garrett (1799-1854)
Editado por: nicoladavid



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