Queixumes de Camões

 

«Oh gruta de Macau, solidão querida,
Onde tão doces horas de tristeza,
De saudade passei! gruta benigna
Que escutaste meus lânguidos suspiros,
Que ouviste minhas queixas namoradas,
Oh fresquidão amena, oh grato asilo
Onde me ia acoitar de acerbas mágoas.
Onde amor, onde a pátria me inspiraram
Os maviosos sons e os sons terríveis
Que hão-de afrontar os tempos e a injustiça!
Tu guardarás no seio os meus queixumes,
Tu contarás às porvindouras eras
Os segredos de amor que me escutaste,

E tu dirás a ingratos Portugueses
Se português eu fui, se amei a Pátria,
Se, além dela e de amor, por outro objecto
Meu coração bateu, lutou meu braço,
Ou modulou meu verso eternos carmes.
Pátria, Pátria, rival m foste d 'Ela!
Tu me ficaste só, não desampares
Quem por Ela e por ti sofreu constante,
Quem por ti só agora o fio extremo
Ténue conserva da existência aflita...
Rosa de amor, rosa purpúrea e bela,
Quem entre os goivos te esfolhou da campa?

 

Autor: Almeida Garrett (1799-1854)
Editado por: nicoladavid

 

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