"Os Cinco Sentidos"


São belas - bem o sei, essas estrelas,
Mil cores - divinais têm essas flores;
Mas eu não tenho, amor, olhos para elas:

Em toda a Natureza
Não vejo outra beleza
Senão a ti - a ti!

 

Divina - ai! sim, será a voz que afina
Saudosa - na ramagem densa, umbrosa,
Será; mas eu do rouxinol que trina
Não oiço a melodia,

 

Nem sinto outra harmonia
Senão a ti - a ti!

 

 

Respira - n' aura que entre as flores gira,
Celeste - incenso de perfume agreste.
Sei ... não sinto: minha alma não aspira,

Não percebe, não toma
Senão o doce aroma
Que vem de ti - de ti!

 

 

Formosos - são os pomos saborosos,
É um mimo - de néctar o racimo:

 

E eu tenho fome e sede ... sequiosos,

Famintos meus desejos

Estão ... mas é de beijos,

É só de ti - de ti!

 

 

Macia - deve a relva luzidia

Do leito - ser por certo em que me deito.
Mas quem, ao pé de ti, quem poderia
Sentir outras carícias,
Tocar noutras delícias
Senão em ti - em ti!
 
 
A ti! ai, a ti só os meus sentidos
Todos num confundidos,
Sentem, ouvem, respiram;
Em ti, por ti deliram.

Em ti a minha sorte,

A minha vida em ti;

 

E quando venha a morte,
Será morrer por ti.

 

Autor: Almeida Garrett (1799-1854)
Editado por: nicoladavid

Não esqueça ligar o som.
 
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