O Retrato de Adozinda

 

Onde vás tão alva e linda,
Mas tão triste e pensativa
Pura, celeste Adozinda,
Da cor da singela rosa
Que nasceu ao pé do rio?
Tão ingénua, tão formosa
Como a flor, das flores brio
Que em serena madrugada
Abre o seio descuidada
A doce manhã de Abril!

— Roupas de seda que leva
Alvas de neve que cega
Como os picos do Gerês
Quando em Janeiro lhe neva.
Cinto cor de violeta

Que à sombra desabrochou;
Cintura mais delicada
Nunca outro cinto apertou.
Anéis louros do cabelo
Como o Sol resplandecentes
Folgam soltos; dá-lhe o vento,
Dá no véu ligeiro e belo,
Véu por suas mãos bordado,
De um santo ermitão fadado
Que vinha da Palestina;
Passou pelo povoado,
Foi-se direito ao castelo
Pediu pousada, e lha deram
Porque intercede a menina:
Que o pai soberbo e descrido,

— Nessa gente peregrina,
Disse, quem sabe o que vem?

— Mas pede Adozinda bela,
Tal virtude e formosura,
Quem lho há-de negar a ela?
Não pode o pai nem ninguém.


Autor: Almeida Garrett (1799-1854)
Editado por: nicoladavid

Comments