O Farol E O Baixel



Como está segura a torre

No meio d'água! não vês?

No cimo a luz da esperança,

O escolho da morte aos pés...

Assim luz amor na vida,

Que é farol de salvação

Assim tem aos pés traidores

O escolho da perdição.

É bonança, e junto à torre

Dorme tranquilo o baixei

Mas quem pôs firmeza em ventos,

Quem teve o mar por fiel?

Na torre ardia o farol,

A onda morta se espelhava:

E o baixel já fatigado

Pela brisa suspirava.

O baixel é novo e lindo,

Velha a torro e desdentada:

Ouvirás o que ela diz

Com a voz cava e rachada:

– Baixelzinho tão ligeiro

Que essa calma impacienta,

Ai! não chames tanto a brisa,

Que pode vir a tormenta.

“Tu és uma torre velha,

Aí presa nesse escolho:

Cega todo o dia, apenas

Te acendem de noite um olho.

Que sabes tu do que vai

No imenso campe do mar?

Eu tenho mais fé na vida,

Quero ver, viver e andar.”

– Solta pois no mar da vida.

Lindo baixei, solta as velas;

Ventura te assopre os ventos,

Guie-te amor das estrelas!

Mas se ao voltar (na viagem

Da vida, o p'rigo é voltar)

Te vires perdido... Oh! vem,

Vem a mim, que me hás de achar.

 

 

Autor: Almeida Garrett (1799-1854)
Editado por: nicoladavid



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