O excesso de gozo é dor


Se estou contente, querida,

Com esta imensa ternura

De que me enche o teu amor?

Não. Ai não; falta-me a vida;

Sucumbe-me a alma à ventura:

O excesso de gozo é dor.

 

Dói-me alma, sim; e a tristeza

Vaga, inerte e sem motivo,

No coração me poisou.

Absorto em tua beleza,

Não sei se morro ou se vivo,

Porque a vida me parou.

 

É que não há ser bastante

Para este gozar sem fim

Que me inunda o coração.

Tremo dele, e delirante

Sinto que se exaure em mim

Ou a vida ou a razão.

 

Autor: Almeida Garrett (1799-1854)
Editado por: nicoladavid


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