Morte de Camões

 

A voz, que afroixa,
interromperam sons desconhecidos
de voz de estranho que na estância humilde
entra do vate: — "Perdoai, se ousado
entrei, senhor, mas..."

— "Quem sois vós? Há inda
homem no mundo que a poisada obscura
de um moribundo saiba?"

— "Cavaleiro,

desde o alvor da manhã que vos procuro:
de África hoje cheguei..."

— "Ah! perdoai-me.

Sois vós, conde? Voltastes? E que novas
me trazeis?"

— "Tristes novas, cavaleiro.

Ai! tristes. Desta carta, que vos trago,
sabereis tudo".

Ao vate a carta entrega:
do missionário era, que dos cárceres
de Fez a escreve. Saudoso e triste,
mas resignado e plácido, lhe manda
consolações, palavras de brandura,
de alívio e de esperança.

— "Extinto é tudo

nesta mansão de lágrimas e dores"

— as letras dizem —"tudo; mas a pátria
da eternidade só a perde o ímpio.

Deus e a virtude restam; consolai-vos..."

— "Oh! consolar-me — exclama, e das mãos trémulas
a epístola fatal lhe cai — Perdido

é tudo, pois!..."

No peito a voz lhe fica;
e, de tamanho golpe amortecido,
inclina a fronte... Como se passara,
fecha languidamente os olhos tristes.
Ansiado, o nobre conde se aproxima
do leito... Ai! tarde vens, auxílio do homem.
Os olhos turvos para o céu levanta,
e já no arranco extremo: — "Pátria, ao menos
juntos morremos..."

E expirou co'a pátria.


Autor: Almeida Garrett (1799-1854)
Editado por: nicoladavid

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