Miragaia

 

— «Rei Ramiro, rei Ramiro.
Rei de muito mau pesar,

Em que te errei de alma ou corpo.
Que fiz para tal penar?

 

Diz que é formosa essa moira,
Que te soube enfeitiçar...

Mas tu dizias-me dantes
Que eu era bela sem par.

 

Que é moça, na flor da vida...
Eu, se ainda bem sei contar,

Há três que tinha vinte anos.
Fi-los depois de casar.

 

Diz que tem os olhos pretos.
Destes que sabem mandar...

Os meus são azuis, coitados,
Não sabem senão chorar.

 

Zara, que é flor, lhe chamam,
A mim. Gaia... Que acertar!

Eu fiquei sem alegria.
Ela a flor não torna a achar.

 

Oh! quem pudera ser homem,
Vestir armas, cavalgar,

Que eu me fora já direita
A esse moiro Alboazar...»

 

Palavras não eram ditas,
Os olhos foi a abaixar,

Muitos vultos acercados
Ao palácio viu estar:

 

— «Peronela, Peronela,
Criada do meu mandar,

Que vultos serão aqueles

Que por ali vejo andar?»

 

Peronela não responde;

Que havia de ela falar?

Ricas peitas de oiro e jóias

A tinham feito calar.

 

A rainha que se erguia
Por sua gente a bradar.

Sete moiros cavaleiros
A foram logo cercar;

Soltam pregas de um turbante,
A boca lhe vão tapar:

Três a tomaram nos braços...
Nem mais um ai pode dar.

 

Criados da sua casa
Nenhum veio a seu chamar;

Ou peitados ou cativos
Não na podem resgatar.

 

São sete os moiros que entraram
Sete os estão a aguardar;

Não falam nem uns nem outros...
E prestes a cavalgar!


Só um, que de arção a toma.
Parece aos outros mandar...

Juntos, juntos, certos, certos.
Galopa a bom galopar!

 

Toda a noite, toda a noite
Vão correndo sem cessar.

Pelos montes trote largo.
Por vales a desfilar.

 

Nos ribeiros — peito nagua

Chape, chape, a vadear!
Nas defesas dos valados
Upl salto — e a galgar!

 

Vai o dia alvorecendo.

Estão à beira do mar.
Que rio é este tão fundo
Que nele vem desaguar?

 

A boca já tinha livre,

Mas não acerta a falar
A pasmada da rainha...

Cuida ainda de sonhar!

 

— Rio Doiro, rio Doiro,
Rio de mau navegar,
Dize-me, essas tuas águas
Adonde as foste buscar?

— Dir-te-ei a pérola fina
Aonde eu a fui roubar.
Ribeiras correm ao rio
O fio corre a la mar.

 

— Quem me roubou minha jóia.
Sua jóia lhe fui roubar...

O moiro que assim cantava,
Gaia que o estava a mirar...

 

Quanto o mais mirares,
Gaia, Mais formoso o hás-de achar.

— Que de barcos que ali vêm!

 

— Barcos que nos vêm buscar.
— Que lindo castelo aquele!

— É o do moiro Alboazar.

 

Rei Ramiro, rei Ramiro,

Rei de muito mau pesar.
Ruins fadas te fadaram.
Má sina te foram dar.

 

Do que tens não fazer conta,
O que não tens cobiçar!...
Zara, a fior dos teus cuidados.
Já te não dá que pensar.

 

A rainha, que era tua.

Que não soubeste guardar.
Agora morto de zelos

Do moiro a queres cobrar.
.......................................

— Voga, rema! dalém Doiro

A pressa, à pressa a passar.
Que já oiço ali na praia
Cavalos a relinchar.

 

Bandeiras são de Leão
Que lá vejo tremular.
Voga, voga, que além Doiro
É terra nossa!... A remar!

 

Daqui é moirama cerrada

Até Coimbra e Tomar.
Voga, rema, e dalém Doiro!
Daquém não há que fiar.

 

A popa vai Dom Ramiro

De sua galé real.
Leva a rainha à direita.
Como quem a quer honrar.

 

Ela, muda, os olhos baixos
Leva n'água... sem olhar,
E como quem de outras vistas
Se quer só desafrontar.

 

Ou Dom Ramiro fingia

Ou não vem nisso a atentar;
Já vão a meia corrente.
Sem um para o outro falar.

 

Ainda arde, inda fumega
O alcáçar de Alboazar;
Gaia alevantou os olhos;
Triste se pôs a mirar;

 

As lágrimas, uma e uma,
Lhe estavam a desfiar,
Ao longo, longo das faces
Correm... sem ela as chorar.

 

Olhou el-rei para Gaia,

Não se pôde mais calar;
Cuidava o bom do marido
Que era remorso e pesar.

 

Do mau termo atraiçoado
Que com ele fora usar
Quando o entregou ao moiro
Tão-só para se vingar.

 

Com a voz enternecida
Assim lhe foi a falar:
— Que tens. Gaia... minha Gaia?
Ora pois! não mais chorar.

 

Que o feito é feito... — E bem feito!

Tornou-lhe ela a soluçar.
Rompendo agora nuns prantos
Que parecia estalar;

 

— É bem feito, rei Ramiro!

Valente acção de pasmar!
À lei de bom cavaleiro.
Para de um rei se contar!

 

À falsa fé o mataste...

Quem a vida te quis dar!
À traição... que doutro modo.
Não és homem para tal.

 

Mataste o mais belo moiro,

Mais gentil, mais para amar
Que entre moiros e cristãos
Nunca mais não terá par.

 

Perguntas-me porque choro!...

Traidor rei, que hei-de eu chorar?
Que o não tenho nos meus braços.
Que a teu poder vim parar.

 

Perguntas-me o que miro!

Traidor rei, que hei-de eu mirar?
As torres daquele alcáçar.
Que ainda estão a fumegar.

 

Se eu fui ali tão ditosa.

Se ali soube o que era amar.
Se ali me fica alma e vida...
Traidor rei, que hei-de. eu mirar!

 

— Pois mira, Gaia! E, dizendo,
Da espada foi arrancar:

Mira, Gaia, que esses olhos
Não terão mais que mirar.»

 

Foi-lhe a cabeça de um talho;

E com o pé, sem olhar.
Borda fora empuxa o corpo...
O Doiro que os leve ao mar.

 

Do estranho caso inda agora

Memória está a durar;
Gaia é o nome do castelo
Que ali Gaia fez queimar;

 

E dalém-Doiro, essa praia

Onde o barco ia a aproar
Quando bradou — Mira, Gaia!
O rei que a vai degolar.

 

Ainda hoje está dizendo
Na tradição popular.
Que o nome tem 
̶  Miragaia

Daquele fatal mirar.

 

Autor: Almeida Garrett (1799-1854)
Editado por: nicoladavid

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