Lembrança dos Contos Infantis



Oh! magas ilusões, oh! contos lindos,
Que às longas noites de comprido Inverno
Nossos avós felizes entretínheis
Ao pé do amigo lar, ao crebro estalo
Da assaltante castanha, e apetitoso
Cheiro do grosso lombo, que volvendo
Pinga e rechia sobre a brasa viva!...
Pimponices de andantes cavaleiros
Capazes de brigar co mundo em peso,
Malandrinices de Merlim barbudo,
Travessuras de lépidos duendes,
E vós, formosas moiras encantadas,
Na noite de São João ao pé da fonte
Áureas tranças com pentes de oiro fino
Descuidadas penteando enquanto o orvalho
Nas esparsas madeixas arrocia
E os lúcidos anéis de perlas touca...
Oh! magas ilusões, porque não posso
Crer-vos eu coa fé viva doutra idade,
Em que de boca aberta e sem respiro,
Sem pestanejo um só, de olhos e orelhas
No Castelo escutava a boa Brígida
Suas longas histórias recortando
De almas brancas trepadas por figueiras,
De expertas bruxas de unto besuntadas
Já pelas chaminés fazendo víspere,
Já indo, às dúzias, em casquinha de ovo
A índia de passeio numa noite...
E ai! se o galo cantou, que à fatal hora
Encantos quebram, e o poder lh'acaba.

 

 

Autor: Almeida Garrett (1799-1854)
Editado por: nicoladavid

Comments