Kyrieleisão




(A senom Christeleilom.

Egas Moniz?)



 

Este é e hino derradeiro

Que, no fim do seu caminho,

Cantava o triste romeiro:

No cansaço e desalinho

Do longo peregrinar

Não sabia já cantar;

Nem as cordas do alaúde

Lhe podiam afinar...

Teimou, e pôs-se a cantar

Este cantar tosco e rude:

“A porta santa de Roma

Eu bati co meu bordão:

O Padre Santo me abria

Dizendo: Kyrieleisão!

“Kyrieleisão! – por minha alma,

Que morro som confissão,

Se não digo àqueles olhos

Que me dêem a absolvição.”

– Absolvição! – aqui tendes;

Tomai-a com devoção:

É uma bula cruzada

Que manda ter compaixão.

“Compaixão – minha senhora,

Tende-a de mim, que é razão

O que manda o Santo Padre,

Fazê-lo o fiel cristão.

Cristão! – é este meu peito:

O vosso, infiel pagão!

As indulgências que trago

Não sei se cá valerão...

Valer! – só Deus à minha alma,

Que morre sem confissão!

Senhora, vós, que a matastes,

Dizei-lhe: Kyrieleisão!”

 

 

Autor: Almeida Garrett (1799-1854)
Editado por: nicoladavid




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