Já Não Sou Poeta



Eu queria apanhar uma rosa

Do um rosa! que já tive no céu,

Quando eu era poeta – e mimosa

Dessas flores que a tantos já deu,

Minha mão punha a c'roa ao valer

E prendia em grinaldas amor.

Eu queria apanhar uma rosa

Do rosal que já tive no céu,

Rosa pura, singela e mimosa,

Para a dar a quem tanto a mer'ceu,

A quem junta ao precioso valor

De alma bela, as mais graças do amor.

Mas não sou já poeta caiu-me

Da cabeça a coroa, o poder:

A inocência do Éden fugiu-me,

Fruto amargo provei do saber...

Sei, perdi-mo... e na triste memória

Nem saudados já tenho da glória.

Bem o vês, o alaúde caiu-me

Destas mãos que não têm já poder:

E o som derradeiro fugiu-me

Do hino eterno que ergui ao nascer,

Ai, por ti, por ti só, à memória

Vêm saudades do tempo da glória!

 

 

Autor: Almeida Garrett (1799-1854)
Editado por: nicoladavid

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