Ignoto Deo

D. D. D. (*)

Creio em ti, Deus: a fé viva
De minha alma a ti se eleva.
És: — o que és não sei.
Deriva Meu ser do teu: luz... e treva,
Em que — indistintas! — se envolve
Este espírito agitado,
De ti vêm, a ti devolve.
O Nada, a que foi roubado
Pelo sopro criador
Tudo o mais, o há-de tragar.
Só vive do eterno ardor
O que está sempre a aspirar
Ao infinito donde veio.
Beleza és tu, luz és tu,
Verdade és tu só. Não creio
Senão em ti; o olho nu
Do homem não vê na terra
Mais que a dúvida, a incerteza,
A forma que engana e erra.

Essência! a real beleza,
O puro amor — o prazer
Que não fatiga e não gasta...
Só por ti os pode ver
O que, inspirado, se afasta,
Ignoto Deus, das ronceiras,
Vulgares turbas: despidos
Das coisas vãs e grosseiras
Sua alma, razão, sentidos,
A ti se dão, em ti vida,
E por ti vida têm. Eu, consagrado
A teu altar, me prostro e a combatida
Existência aqui ponho, aqui votado
Fica este livro — confissão sincera
Da alma que a ti voou e em ti só spera.



Autor: Almeida Garrett (1799-1854)
Editado por: nicoladavid

(*)
Dat, donat, dedicat (nota transcrita da ed. crítica de R. A. Lawton): dá, oferece, dedica.

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