De Onde Vieste

 

De onde vieste,
amável pombinha,

Gentil avezinha,

Aonde é que vais?

De onde trouxeste

Aroma tão brando

Que espalhas, voando,

Por todo esse ar?

– Foi Anacreonte

Que ao seu bem amado

Com meigo recado,

Aqui me mandou:

Seu bem, que reparte

Dos lumes divinos

Ao mundo os destinos

Num lânguido olhar.

Da maga Citera

O cego menino,

A troco de um hino

Ao vate me deu:

Sou de Anacreonte

Agora o paquete,

É dele o bilhete

Que vou entregar.

Prometeu-me cedo

De dar-me alforria,

Que eu antes queria

Sempre escrava ser...

Que gosto é no mato

Andar pelas fragas,

Viver só de bagas,

Nos ramos dormir?

Da mão de meu dono

Como alvo pãozinho

E só bebo vinho

Do que ele me dá.

Às vezes alegre

Saltando, esvoaço,

E sombra lhe faço

Co’as asas a dar;

Ou quando me sinto

De sono pesada,

Na lira doirada

Me deito a dormir.

Adeus! que me fazes

Ser mais palradeira

Que a gralha grasneira

Com o teu perguntar.

Autor: Almeida Garrett (1799-1854)
Editado por: nicoladavid

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