De Loto E De Murtas




(De Anacreonte)

 



De loto e de murtas

Num leito virente,

Bebendo contente,

Me vou recostar:

E os copos alegres

Me venha Cupido.

De gala vestido.

Aqui ministrar.

Qual roda de coche

No giro apressada,

A idade açodada

Nos voa a fugir.

Desfeitos são esses

Em vã cinza leve,

Iremos em breve

Na campa jazer.

Porque hão de os sepulcros

Em vão ser ungidos,

E esses dons perdidos

A terra sorver?

Dá-me antes em vida

As cr'oas de rosas,

E essências cheirosas

Para me eu toucar,

Ou traz-me uma bela

Que tem seus amores,

– Enquanto aos horrores

Do Orco não vou –

Me venha estes gostos

Dobrar melhorados,

E os negros cuidados

Todos dissipar.

Ao touro deu córneas pontas

A próvida natureza,

Deu à lebre a ligeireza,

E a dura pata ao corcel.

A voar ensina às aves,

Ao peixe manda nadar

E deu ao leão sanhudo

O dente destruidor:

Aos homens deu a prudência:

A mulher não pôde dá-la...

Acaso quis deserdá-la,

Ou então com que a dotou?

Por armas e por defesa

Deu-lhe as formas engraçadas

Que e ferre, o fogo, as espadas,

Que tudo podem vencer.

Autor: Almeida Garrett (1799-1854)
Editado por: nicoladavid



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