D. Branca

 

E de ti, linda Branca, de ti, bela.
Mimosa dama tenra e delicada.
Ai! de ti com horror meu canto foge.
Cortada a voz nas cordas do alaúde
Teu destino cruel dizer não ousa.
Virgem botão, que ao som desabrochavas
Em jardim de virtudes, ai! colheu-te
Grosseira mão do salteador dos bosques.
Quem te defenderá? Tua virtude?
Céus! a cândida rosa da inocência
Faltam-lhe espinhos que do vício a guardem.
Irás, filha de reis, sangue de Afonso,
Ramo augusto dessa árvore frondosa
Que germinou nos campos da vitória,
E coas raízes no sanguento Ourique
Topeta os astros da estelada esfera,
Irás pois tu, que os tálamos doirados
Dos príncipes da Terra desprezaste,
E repoisavas gemedora pomba
Nívea no seio do celeste amado,
Irás de imundo harém vítima abjecta,
A prazeres infames, e ao capricho
De bárbaro senhor jazer escrava?


Autor: Almeida Garrett (1799-1854)
Editado por: nicoladavid
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