Cristãos e Moiros

 

Moiros!... Com olhos fixos e pasmados.
De susto e medo atónitos se encaram
Uns aos outros, e como que perguntam
Em seu mudo falar: «O que faremos?»
Dos cavaleiros a mor parte dorme;
E os que velavam co'a função nocturna
Da orgia monacal, tomados, súbito
De terror imprevisto, acovardados,
Sem ânimo, sem força, irresolutos.
Em pavor frio como os outros gelam.
«Que faremos?» — «Às armas!» gritou Nuno!
«Ânimo! às armas, e segui-me todos,
Que eu...»—Não bem proferira estas palavras
Tremendo Alá soou pelas abóbadas
Agudas do comprido dormitório,
E os alfanges nas trevas cintilaram.
Mal aclaradas das nocturnas lâmpadas,
Luziram finas pedras nos doirados
Broches d’alvos turbantes.—Alá soa...
E os frades, o doutor e os cavaleiros
Se viram num instante sobre os peitos
Apontadas as duras cimitarras.
Cru terror de cristãos. — Nem um suspiro.
Nem um ai: mãos atrás, e um nó valente
De rijo esparto. — Nuno só, que em tanta
Desordem conservou cordura e alma.
Das mãos do frade toma a cruz que guiava
A procissão burlesca, e a golpes vivos
Co’a bandeira de fé a infiéis combate.
Sobre ele alfanges cento a golpes chovem.

Se descarregam ponderosas achas.
Mas o intrépido Nuno a um lado e outro
Fere, estrui, defende-se, e derruba
Inerme e só ao ismaelita armado.
Não lhe comporta o generoso peito
Perder, sem disputar, a liberdade,
E antes a vida, que a honra, barateia.
Caminho se abre entre as cerradas turmas
Das moiriscas espadas... Espantado
De tanto esforço, e como que vencido
Dum poder sup'rior, recua o moiro;
E o intrépido mancebo, defendendo-se,
Retirando-se, enfim a escada alcança.
C'um desesp'rado golpe e furibundo
Aterra os que mais próximos o seguem;
A pulos desce, atravessou a crasta,
— Como sulco de luz na tempestade,
Que as nuvens rasga, e some-se — na cerca
Entre árvores e o escuro desaparece.
— Deixai-o: disse entre os infiéis um deles
Que o nobre ad’man, o rico dos vestidos,
E o respeito que os outros lhe catavam
Seu chefe mostra ser: «quem tão valente
Assim defende a liberdade e a vida,
É digno de as gozar: ninguém o siga.»

Quem é este inimigo generoso,
Que alma tão nobre em peito infiel encerra?
Quem é este guerreiro muçulmano.
Que tão gentil, tão majestoso brilha
Nas pitorescas árabes alfaias
Que o talhe heróico, o altivo porte, a graça
Esbelta, de marcial beleza arreiam?
…………………………………………………………
E este era o chefe da infiel coorte.
Que o santo asilo a profanar se atreve
Da monacal virtude. Preso o abade
C'o resto de seus monges que dormiam,
Com os mais castelhanos cavaleiros,
A quem grilhões pesados despertaram
Do brando sono, todos manietados,
Excepto Nuno, quantos habitavam
O mosteiro essa noite malfadada.
Ao vencedor seus campeões os trazem.


Autor: Almeida Garrett (1799-1854)
Editado por: nicoladavid
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