Conde Yanno

 

Chorava a infanta, chorava,

Chorava e razão havia,

Vivendo tão descontente;

Seu pai por casar a tinha.

Acordou el-rei da cama

Com o pranto que fazia:

- «Que tens tu, querida Infanta,

Que tens tu, ó filha minha?»

- «Senhor pai, o que hei-de eu ter

Senão que me pesa a vida?

De três irmãs que nós éramos,

Solteira eu só ficaria.»

- «Que queres tu que eu te faça?

Mas a culpa não é minha.

Cá vieram embaixadas

De Guitaina e Normandia;

Nem ouvi-las não quiseste,

Nem fazer-lhes cortesia...

Na minha corte não vejo

Marido que te daria...

Só se fosse o conde Yanno,

E esse já mulher havia.»

- «Ai! rico pai da minha alma,

Pois esse é que eu queria.

Se ele tem mulher e filhos,

A mim muito mais devia.

Que me não soube guardar

A fé que me prometia.»

 

Manda el-rei chamar o conde,

Sem saber o que faria:

Que lhe viesse falar...

Sem saber que lhe diria.

- «Inda agora vim do paço,

Já el-rei lá me queria!

Ai! será para meu bem?

Ai! para meu mal seria?»

 

Conde Yanno que chegava,

El-rei que a buscar o vinha:

- «Beijo a mão a Vossa Alteza;

Que quer Vossa Senhoria?»

Responde-lhe agora o rei

Com grande merencoria:

- «Beijai, que mercê vos faço;

Casareis com minha filha.»

Cuidou de cair por morto

O conde que tal ouvia:

- «Senhor rei, que sou casado

Já passa mais de ano e dia!»

- «Matareis vossa mulher,

Casareis com minha filha.»

- «Senhor, como hei-de matá-la

Se a morte me não mer'cia?»

- «Calai-vos, conde, calai-vos,

Não vos quero demasia;

Filhas de reis não se enganam

Como uma mulher cativa.»

- «Senhor, que é muita razão,

Mais razão que ser devia,

Para me matar a mim

Que tanto vos ofendia;

Mas matar uma inocente

Com tamanha aleivosia!

Nesta vida nem na outra

Deus mo não perdoaria.»

- «A condessa há-de morrer

Pelo mal que cá fazia.

Quero ver sua cabeça

Nesta doirada bacia.»

 

Foi-se embora o conde Yanno,

Muito triste que ele ia.

Adiante um pajem de el-rei

Levava a negra bacia.

O pajem ia de luto,

De luto o conde vestia:

Mais dó levava no peito

Cos apertos da agonia.

A condessa, que o esperava,

De muito longe que o via,

Com o filhinho nos braços

Para abraçá-lo corria.

- «Bem-vindo sejais, meu conde,

Bem-vinda minha alegria!»

Ele sem dizer palavra

Pelas escadas subia.

Mandou fechar seu palácio,

Coisa que nunca fazia;

Mandou logo pôr a ceia

Como quem lhe apetecia.

 

Sentaram-se ambos à mesa,

Nem um nem outro comia;

As lágrimas eram um rio

Que pela mesa corria.

Foi a beijar o filhinho

Que a mãe aos peitos trazia,

Largou o seio o inocente,

Como um anjo lhe sorria.

Quando tal viu a condessa,

O coração lhe partia;

Desata em tamanho choro

Que em toda a casa se ouvia;

- «Que tens tu, querido conde,

Que tens tu, ó vida minha?

Tira-me já destas ânsias,

El-rei o que te queria?»

Ele afogava em soluços,

Responder-lhe não podia;

Ela, apertando-o nos braços,

Com muito amor lhe dizia:

- «Abre-me o teu coração,

Desafoga essa agonia,

Dá-me da tua tristeza,

Dar-te-ei da minha alegria.»

Levantou-se o conde Yanno,

A condessa que o seguia.

Deitaram-se ambos no leito;

Nem um nem outro dormia.

Ouvireis a desgraçada,

Ouvide ora o que dizia:

- «Peço-te por Deus do Céu

E pela Virgem Maria,

Antes me mates, meu conde,

Que eu ver-te nessa agonia.»

- «Morto seja quem tal manda,

Mais a sua tirania!»

- «Ai! não te entendo, meu conde,

Dize-me, por tua vida,

Que negra ventura é esta,

Que entre nós está metida?»

- «Ventura da sem-ventura,

Grande foi a tua mofina!

Manda-me el-rei que te mate,

Que case com sua filha.»

Palavras não eram ditas,

Inda mal lhas ouviria,

A desgraçada condessa

Por morta no chão caía.

Não quis Deus que ali morresse...

Triste que ali não morria!

Maior dor do que a da morte

A torna a chamar à vida.

- «Cala, cala, conde Yanno,

Que inda remédio haveria;

Ai! não me mates, meu conde,

E um alvitre te daria:

A meu pai me mandarás,

Pai que tanto me queria!

Ter-me-ão por filha donzela

E eu a fé te guardaria.

Criarei este inocente

Que a outra não criaria;

Manter-te-ei castidade

Como sempre ta mantia.»

- «Ai como pode isso ser,

Condessa minha querida,

Se el-rei quer tua cabeça

Nesta doirada bacia?»

- «Cala, cala, conde Yanno,

Que inda remédio teria,

Meter-me-ás num convento

Da ordem da freiraria;

Dar-me-ão o pão por onça

E a água por medida:

Eu lá morrerei de pena,

E a infanta o não saberia.»

- «Ai! como pode isso ser,

Condessa minha querida,

Se quer ver tua cabeça

Nesta maldita bacia?»

- «Fecharas-me numa torre,

Nem Sol, nem Lua veria,

As horas da minha vida

Por meus ais as contaria.»

- «Ai! como pode isso ser,

Condessa minha querida,

Se el-rei quer tua cabeça

Nesta doirada bacia?»

Palavras não eram ditas,

El-rei que à porta batia:

Se a condessa não é morta,

Que então ele a mataria.

- «A condessa não é morta

Mas está na agonia.»

- «Deixa-me dizer, meu conde,

Uma oração que eu sabia.»

- «Dizei depressa, condessa,

Antes que amanheça o dia.»

- «Ai! quem poderá rezar,

Ó virgem Santa Maria!

Que eu não me pesa da morte,

Pesa-me da aleivosia:

Mais me pesa de ti, conde,

E da tua cobardia.

Matas-me por tuas mãos.

Só porque el-rei o queria!

Ai! Deus te perdoe, conde,

Lá na hora da contia.

Deixar-me dizer adeus

A tudo o que eu mais queria;

Às flores deste jardim,

Às águas da fonte fria.

Adeus cravos, adeus rosas,

Adeus flor da Alexandria!

Guardai-me vós meus amores

Que outrem me não guardaria.

Dêem-me cá esse menino,

Entranhas da minha vida;

Deste sangue de meu peito

Mamará por despedida.

Mama, meu filhinho, mama

Desse leite da agonia;

Que até'gora tinhas mãe,

Mãe que tanto te queria,

Amanhã terás madrasta

De mais alta senhoria...»

Tocam nos sinos na Sé...

Ai Jesus! quem morreria?

Responde o filhinho ao peito,

Respondeu - que maravilha!

- «Morreu, foi a nossa Infanta

Pelos males que fazia;

Descasar os bem casados:

Coisa que Deus não queria.»

 

 

Autor: Almeida Garrett (1799-1854)
Editado por: nicoladavid

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