"As Minhas Asas"

 
 

Eu tinha umas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,

Que, em me eu cansando da terra,
Batia-as, voava ao céu.

 

- Eram brancas, brancas, brancas,
Como as do anjo que mas deu:

Eu inocente como elas,
Por isso voava ao céu.
Veio a cobiça da terra,
Vinha para me tentar;

Por seus montes de tesouros
Minhas asas não quis dar.

- Veio a ambição, co'as grandezas,
Vinham para mas cortar,
Davam-me poder e glória;

Por nenhum preço as quis dar.

 

Porque as minhas asas brancas,
Asas que um anjo. me deu,

Em me eu cansando da terra,
Batia-as, voava ao céu.

 

Mas uma noite sem lua

Que eu contemplava as estrelas,
E já suspenso da terra,

Ia voar para elas,

 

- Deixei descair os olhos

Do céu alto e das estrelas ...
Vi entre a névoa da terra,
Outra luz rnais bela que elas.

 

E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo. me deu,
Para a terra me pesavam,
Já não se erguiam ao céu.
Cegou-me essa luz funesta
De enfeitiçados amores ...

Fatal amor, negra hora
Foi aquela hora de dores!

 

- Tudo perdi nessa hora
Que provei nos seus amores
O doce fel do deleite,

O acre prazer das dores.

 

E as minhas asas brancas,
Asas que um anjo me deu,
Pena a pena me caíram ...
Nunca mais voei ao céu.

 

 

Autor: Almeida Garret  (1799-1854)
Editado por: nicoladavid

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