Aquela Noite

 

Era a noite de loucura,
Da sedução, do prazer,
Que em sua mantilha escura
Costuma tanta ventura,
Tantas glórias esconder.
Os felizes... e ai! são tantos!
— Eu por tantos os contava!
Eu que o sinal de meus prantos
Do aflito rosto lavava —
Os felizes presunçosos
Iam nos coches ruidosos
Correndo aos salões doirados
De mil fogos alumiados,
Donde em torrentes saía
A clamorosa harmonia
Que à festa, ao prazer tangia.

Eu sentia esse ruído
Como o confuso bramar
De um mar ao longe movido
Que à praia vem rebentar.
E disse comigo: — «Vamos,
Os lutos d'alma dispamos,
À festa hei-de ir também eu!»
E fui: e a noite era bela,
Mas não vi a minha estrela
Que eu sempre via no céu:
Cobriu-a de espesso véu
Alguma nuvem a ela,
Ou era que já vendado
Me levava o negro fado
Onde a vida me prendeu?

Fui; meu rosto macerado,
A funda melancolia
Que todo o meu ser revia,
Qual o ataúde levado
A egípcio festim (*), dizia:
— «Como vós fui eu também;
Folgai, que a morte aí vem!»

Dizia-o, sim, meu semblante,
Que, onde eu chegava, o prazer
Cessava no mesmo instante;
E o lábio, que ia a dizer
Doçuras de amor, gelava;
E o riso, que ia a nascer
Na face linda, expirava.
Era eu — e a morte em mim,
Que só ela espanta assim!

Quantas mulheres tão belas
Ébrias de amor e desejos,
Quantas vi saltar-lhe os beijos
Da boca ardente e lasciva!
E eu, que ia chegar-me a elas...
Para logo a fronte esquiva
De recatos se envolvia
E, toda pudor, tremia.

Quantas o seio anelante
Nu, ardente e palpitante
Andavam como entregando
À cobiça mal desperta,
Gasta já e desdenhosa,
Dos que as estavam mirando
Com vaga luneta incerta,
Que diz: — «Aquela é formosa,
Não se me dava de a ter.
E este? É só baronesa,
Vale menos que a duquesa:
Não sei a qual atender.»

E a isto chamam prazer!
A grande ventura é esta?
Vale a pena vir à festa
E vale a pena viver.
Como então quis à tristura
Do meu viver isolado!
Fique-se embora a ventura,
Que eu quero ser desgraçado.

Levantei alto a cabeça,
Senti-me crescer — e a frente
Desanuviar-se contente
Do feio negrume espesso
Que assustava aquela gente.
Logo os sorrisos caíam
Para o meu lado também;
Já como um dos seus me viam,

Que (**) em mim não viam ninguém
Eu, de olhos desencantados,
A elas, como as eu via!
Meus entusiasmos passados,
Oh! como eu deles me ria!

Frio o sarcasmo saía
De meus lábios descorados,
E sem dó e sem pudor
A todas falei de amor...
De amor bruto, degradante
Que no seio palpitante,
Na espádua nua se acende...
Amor lascivo que ofende,
Que faz corar... Elas riam
E oh que não, não se ofendiam!

Mas a orquestra bradou alta:
— «Festa, festa! e salta, salta!»
Os seus guizos delirantes
Sacode louca a Folia...
Adeus, requebros de amantes!
Suspiros, quem nos ouvia?
As palavras meias ditas,
Meias nos olhos escritas,
Voavam todas perdidas
Dispersas, rotas no ar;
Que se foram almas, vidas,
Tudo se foi a valsar.

Quem é esta que mais voltas
Gira, gira sem cessar?
Como as roupas leves, soltas,
Aéreas leva a ondular
Em torno à forma graciosa,
Tão flexível, tão airosa,
Tão fina! — Agora parou,
E tranquila se assentou.
Que rosto! Em linhas severas
Se lhe desenha o perfil;
E a cabeça, tão gentil,
Como se fora deveras
A rainha dessa gente,
Como a levanta insolente!

Vive Deus! que é ela... aquela,
A que eu vi na tal janela,
E que triste me sorria
Quando, passando, me via
Tão pasmado a olhar para ela,
A mesma melancolia

Nos olhos tristes — de luz
Oblíqua, viva, mas fria;
A mesma alta inteligência
Que da face lhe transluz;
A mesma altiva impaciência
Que de tudo, tudo cansa,
De tudo o que foi, que é,
E na erma vida só vê
O raio da vaga esp'rança.

— «Pois isto sim que é mulher!»
Disse eu — «e aqui há que ver».

Já vinha a pálida aurora
Anunciando a manhã fria,
E eu falava e eu ouvia
O que até àquela hora
Nunca disse, nunca ouvi...
Toda a memória perdi
Das palavras proferidas...
Não eram destas sabidas,
Nem quais eram não no sei...
Sei que a vida era outra em mim,
Que era outro ser o meu ser,
Que uma alma nova me achei
Que eu bem sabia não ter,

E daí? — Daí, a história
Não deixou outra memória
Dessa noite de loucura,
De sedução, de prazer...
Que os segredos da ventura
Não são para se dizer.


Autor: Almeida Garrett (1799-1854)
Editado por: nicoladavid

(*) No meio das festas aparecia o ataúde para lembrar as contingências do prazer: a morte era certa.
(**) Quando antes.

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