A Tempestade



“Coeco carpitur igni.”

(Virg.)


 

I

Sobre um rochedo

Que o mar batia,

Triste gemia

U m desgraçado,

Terno amador.

Já nem lhe caem

Dos olhos lágrimas,

Suspiros férvidos

Apenas contam

Seu triste amor.

II

Ondas, clamava o mísero,

Ondas que assim bramais,

Ouvi meus tristes ais!

Horrível tempestade,

Medonho furacão,

Não é mais agitado

Do que o meu coração,

O vosso despregado,

Horríssono bramar!

Ânsia que atropela

Meu lânguido peito,

É mais violenta

Que o tempo desfeito,

Que a onda encapela,

Que agita a tormenta

No seio do mar.

III

Mas, ah! se o negrume

O sol dissipara

Calmara,

Seu nume

O horror do tufão.

Assim à minha alma

A calma

Daria

De Armia

Um sorriso:

Um raio de esp'rança

Do paraíso

Traria

A bonança

Ao meu coração.

 

Autor: Almeida Garrett (1799-1854)
Editado por: nicoladavid


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